Estudo mostra que, há ~540 milhões de anos, mudanças na alimentação e excreção dos primeiros animais redistribuíram recursos até as zonas profundas do mar. Isso favoreceu a emergência de vida marinha mais complexa.
Uma recente revisão científica revelou que uma alteração na maneira como os primeiros animais se alimentavam e digeriam seus alimentos pode ter sido crucial para a transformação dos oceanos da Terra há cerca de 540 milhões de anos.
Os pesquisadores identificaram um fenômeno que batizaram de “revolução fecal do Cambriano”, que destaca como o aumento na quantidade e diversidade de fezes durante este período contribuiu para a distribuição de nutrientes nas profundezas do mar. Essa mudança favoreceu o surgimento de ecossistemas cada vez mais complexos.
A chamada explosão cambriana, marcada pela rápida diversificação da vida marinha e pelo surgimento de muitos dos principais grupos de animais que conhecemos hoje, se torna mais compreensível através dessa nova hipótese.
“Isso aumentou a quantidade de alimento disponível e também ajudou a levar nutrientes importantes para regiões mais profundas do oceano, criando novos espaços para a vida”, explicou um dos autores do estudo, Russell Bicknell, da Universidade Flinders, na Austrália.
À medida que os animais desenvolveram sistemas digestivos mais sofisticados e começaram a explorar diferentes fontes de alimento, começaram a produzir resíduos maiores e mais variados. Essas fezes atuavam como pequenos pacotes de matéria orgânica que afundavam lentamente na coluna d’água, transportando alimento e nutrientes da superfície para as regiões mais profundas do oceano.
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Esse processo não apenas ampliava a oferta de recursos para organismos que habitavam longe da luz solar, mas também favorecia o desenvolvimento de novos habitats. O estudo, que reúne evidências coletadas em mais de 35 depósitos fossilíferos ao redor do mundo, destaca a importância desses resíduos na dinâmica ecológica.
Os cientistas encontraram coprólitos, que são fezes fossilizadas, variando de partículas microscópicas a exemplares com vários centímetros de comprimento. Alguns fósseis preservam conchas e fragmentos de outros animais, o que indica que as relações alimentares já eram bastante diversificadas durante o Cambriano.
Além disso, os sinais de predação e restos de presas preservados em fósseis mostram que a alimentação e a digestão dos animais se tornaram mais complexas. Alguns artrópodes primitivos desenvolveram estruturas digestivas especializadas, capazes de processar uma variedade maior de alimentos.
Com o aumento do tamanho dos resíduos, uma quantidade crescente de matéria orgânica chegava ao fundo do oceano, acelerando o transporte de carbono e nutrientes entre a superfície, as águas profundas e o leito marinho. Embora esse mecanismo não explique sozinho a explosão cambriana, ele é considerado um componente relevante nesse processo.
Os pesquisadores afirmam que essa dinâmica continua a operar nos ecossistemas marinhos modernos, onde fezes, restos de organismos e outras partículas seguem desempenhando um papel vital na distribuição de alimento e nutrientes pelo oceano. “Foi o começo dos ecossistemas marinhos modernos”, concluiu Bicknell.

Fonte: Olhar Digital
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