Pesquisas sobre a Guerra Fria na América Latina privilegiam a atuação da CIA, relegando a KGB a segundo plano. O historiador Christopher Andrew expõe esse viés ao analisar arquivos soviéticos.
Na análise da Guerra Fria latino-americana, um aspecto intrigante se destaca: a assimetria na historiografia. A narrativa frequentemente enfatiza a atuação da CIA, enquanto o papel da KGB, a inteligência soviética, é relegado a um segundo plano. Essa disparidade não é apenas uma questão casual; é um desequilíbrio estrutural que raramente é abordado como um problema.
O historiador britânico Christopher Andrew, um renomado especialista em arquivos de inteligência soviética, trouxe à tona essa questão em seu livro The World Was Going Our Way: The KGB and the Battle for the Third World. Ele observa que mesmo as análises mais respeitáveis sobre a política externa soviética tendem a marginalizar o papel da KGB, tratando-a quase como uma nota de rodapé em um tema que deveria abordá-la como protagonista. Andrew utiliza uma metáfora poderosa para descrever essa situação: uma história manca da guerra secreta nos países em desenvolvimento, onde o som de aplausos é produzido com apenas uma mão.
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Essa assimetria não é mera questão de arquivos perdidos ou destruídos. Ela resulta de uma vitória no campo da cultura e da comunicação de massa. O comunismo pode ter enfrentado derrotas militares e econômicas, mas prevaleceu na construção de narrativas. Uma das cláusulas mais eficazes dessa narrativa é a ideia de que o imperialismo só pode ser atribuído aos Estados Unidos na América Latina, enquanto a presença soviética é disfarçada sob termos como “solidariedade internacional” e “apoio aos movimentos de libertação”. Assim, a CIA é vista como responsável por golpes, enquanto a KGB é apenas descrita como um agente de cortesia.
Recentemente, com o auxílio da inteligência artificial, documentos dos arquivos da StB, o serviço secreto da República Tcheca, foram traduzidos e analisados. Esses documentos revelam a atuação da inteligência tchecoslovaca na América Latina durante a Guerra Fria e como obtive acesso a eles. Em 2016, entrei em contato com o Arquivo do Serviço de Segurança tcheco, solicitando informações sobre a presença da StB no Brasil. Apesar das dificuldades financeiras para o envio dos documentos, consegui que uma amiga que estava em Praga trouxesse o material.
Entre as pastas solicitadas estavam temas como “Jornalistas no Brasil”, “Partido Trabalhista Brasileiro e sindicatos”, e “CIA na Embaixada dos EUA no Brasil”. Infelizmente, algumas pastas foram destruídas, e obtive acesso a apenas dez dos quatorze pedidos. Uma das mais relevantes foi a pasta 80.803, que aborda a criação de um escritório da StB no Rio de Janeiro. Este material, composto por correspondências entre a residência da StB no Brasil e sua central em Praga durante 1963, oferece uma visão única sobre as operações de inteligência da época, escritas por burocratas sem a influência de uma perspectiva histórica posterior.

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