Mouse: P.I. for Hire, desenvolvido pela Fumi Games, chega ao Steam com uma proposta ambiciosa: fundir o gênero noir clássico de detetives com um shooter em primeira pessoa de estilo retrô, ambientado em um mundo habitado exclusivamente por ratos. O resultado, no entanto, é um jogo que domina a estética, mas tropeça em quase tudo o que está por baixo dela.
A história e o protagonista
O jogador assume o papel de Jack Pepper, um detetive particular que recebe uma missão aparentemente simples: investigar o desaparecimento de um mágico, encomendada por Wanda Fuller, repórter do Mouseburg Herald. Como de praxe no gênero, o caso se desdobra em uma conspiração muito maior, envolvendo uma tentativa de assassinato contra um candidato a prefeito e violência motivada por preconceito entre ratos maiores e menores — os chamados “shrews”. A estrutura narrativa segue os moldes clássicos do noir, com reviravoltas esperadas e uma trama considerada sólida o suficiente.
Referências em excesso e humor sem descanso
Um dos principais problemas apontados na análise publicada pelo IGN é o abuso de referências e piadas internas. Por se tratar de um mundo de ratos, praticamente tudo gira em torno de queijo — criminosos são chamados de “cheeseleggers”, descrições usam termos como “gorgonzola piccante sobre uma bandeja de mozzarella” e personagens juram pela “cottage cheese da vovó”. Inicialmente charmoso, o recurso se torna exaustivo pela repetição.
O jogo também quebra constantemente a quarta parede. Em um momento, o personagem Jack comenta que espera não enfrentar uma sequência de três chefes robôs — o que, claro, acontece imediatamente. Em outro, ele chama um inimigo de “mini-boss” e ri da própria piada. O elenco de dubladores, liderado por Troy Baker, é elogiado pelo esforço, mas o roteiro não os favorece.
Gameplay: o ponto mais forte, mas ainda irregular
Na jogabilidade, Mouse: P.I. for Hire se enquadra na recente onda dos chamados “boomer shooters”, jogos inspirados nos clássicos como Doom e Quake. O arsenal disponível inclui pistola, espingarda, dinamite, uma metralhadora estilo anos 1930 chamada “James Gun” e armas mais inusitadas, como o Devarnisher — que dispara uma substância semelhante a cola que derrete a carne dos inimigos, deixando apenas o esqueleto.
O personagem também conta com movimentos como salto duplo, dash, deslizamento e um giro de cauda que permite planar. Visualmente, o jogo é construído em preto e branco, misturando sprites 2D com modelos 3D, com uma apresentação descrita como esteticamente impecável.
Porém, nem tudo funciona bem. A espingarda, por exemplo, tem um som fraco, desproporcional ao efeito visual que causa. Os inimigos surgem majoritariamente de portas marcadas com caveiras, o que elimina qualquer senso de ambientação. O jogo também recorre com frequência ao recurso de travar o jogador em uma sala até que todos os inimigos sejam eliminados. Na dificuldade normal, os itens de saúde são tão abundantes que o desafio praticamente inexiste. A campanha tem duração aproximada de 12 horas.
Exploração, segredos e o hub central
O jogo oferece segredos espalhados pelos cenários, incluindo jornais, dinheiro, esquemas de melhoria de armas e cards de beisebol. Paredes frágeis podem ser destruídas e cofres podem ser abertos com a cauda do personagem, que funciona como um gancho de arrombamento. Alguns cofres têm limite de tempo ou número de tentativas, enquanto outros são simples demais — uma inconsistência que torna a experiência irregular.
Entre as fases, o jogador retorna a um hub que inclui o escritório de Jack, um bar, uma loja e uma oficina de upgrades. O minigame de cartas de beisebol disponível no bar é destacado como um dos momentos mais divertidos do jogo. Já o elemento de investigação — teoricamente central para um jogo de detetive — é apontado como praticamente inexistente: as pistas são automaticamente fixadas em um mural e Jack simplesmente “intui” para onde ir, sem qualquer participação ativa do jogador.
A incoerência central: o detetive que é um exterminador
A crítica mais contundente diz respeito à chamada dissonância ludonarrativa. Jack Pepper é apresentado como um detetive particular comum, sem dinheiro e tentando sobreviver. No entanto, ao longo do jogo, ele mata mais pessoas em uma única missão do que Philip Marlowe em todos os livros de Raymond Chandler juntos. Em um dos cenários, Jack incendeia uma ópera para salvar um candidato político e termina enfrentando — e possivelmente matando — a cantora lírica do lugar, que estava furiosa com a destruição do seu local de trabalho.
A narrativa, segundo a análise, jamais confronta ou reconhece essas ações. Jack continua sendo retratado como um sujeito comum, enquanto elimina delegacias inteiras de policiais sem qualquer consequência. O jogo quer que o jogador se importe com os personagens e com a investigação, mas torna impossível essa conexão ao ignorar completamente o peso moral das ações do protagonista.
Mouse: P.I. for Hire está disponível na Steam para PC. A análise completa foi publicada originalmente pelo IGN.
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