A forma de contratar serviços domésticos está mudando no Brasil. Empresas usam tecnologia e capacitação para organizar um mercado historicamente informal e baseado apenas em indicações.
Por décadas, a contratação de diaristas no Brasil era um processo informal, baseado em indicações de familiares, amigos ou porteiros. Essa relação se fundamentava na confiança pessoal, sem estrutura de seleção ou padronização. Embora esse modelo ainda seja predominante, ele começa a ser desafiado por empresas que buscam organizar um mercado historicamente informal. A transformação está sendo impulsionada por tecnologia, treinamento e um novo entendimento sobre a importância deste serviço essencial para lares e pequenas empresas.
A rede Mary Help, fundada em 2011 por José Roberto Campanelli, é um exemplo de como essa mudança começou antes mesmo do setor ganhar mais visibilidade. O objetivo inicial da empresa era intermediar a contratação de diaristas previamente selecionadas para atender residências e pequenos negócios. Campanelli declara:
“Nós pegamos um setor totalmente marcado pela informalidade”
.
Quando a Mary Help iniciou suas atividades, o mercado operava basicamente em duas modalidades: empregadas domésticas contratadas diretamente pelas famílias ou diaristas autônomas indicadas por conhecidos. Nos anos seguintes, o número de diaristas cresceu, principalmente devido à demanda por serviços mais flexíveis e menos dependentes do modelo mensalista.
Essa mudança também reflete transformações sociais significativas. Com mais mulheres no mercado de trabalho e rotinas familiares mais fragmentadas, cresceu a necessidade de apoio profissional em casa. Além disso, a contratação passou a exigir mais praticidade, segurança e previsibilidade.
Campanelli observa que, na contratação direta, o cliente frequentemente conhece pouco sobre a profissional que entrará em sua casa, tendo apenas o contato fornecido por alguém. Não há análise de histórico ou avaliação de perfil, o que pode gerar insegurança. Para a empresa, profissionalizar esse mercado significou atuar em ambas as pontas: formando diaristas sobre seus direitos e deveres e orientando clientes sobre como gerenciar a relação de trabalho.
Esse enfoque profissional é fundamental para garantir uma experiência satisfatória. Uma jornada de trabalho de oito horas não deve se transformar em uma carga indefinida com tarefas adicionais. O processo da Mary Help inclui seleção rigorosa, análises de perfil, treinamentos e avaliações constantes feitas pelos clientes, além de permitir que as unidades também sejam avaliadas.
A confiança, segundo Campanelli, é um ativo que leva tempo para ser construído e segundos para ser destruído. A tecnologia se tornou um elemento central nessa construção. No início, a gestão era feita em papel, mas com o crescimento da base de clientes, a empresa criou um sistema próprio para gerenciar agendas, pagamentos e avaliações.
Com o passar dos anos, a Mary Help desenvolveu aplicativos e implementou inteligência artificial no atendimento inicial, embora mantenha a curadoria humana. Campanelli não considera a empresa uma simples plataforma, pois acredita que os serviços domésticos exigem um cuidado que não pode ser reduzido a algoritmos.
A rede atualmente opera com cerca de 200 unidades franqueadas e aproximadamente 10 mil diaristas ativas, gerando entre 50 mil e 60 mil diárias mensais. O modelo de franquias foi escolhido para possibilitar uma expansão nacional mantendo a proximidade local. A descentralização permite que cada unidade conheça melhor as equipes e as necessidades da região, assegurando um controle mais próximo da qualidade.
Recentemente, a empresa começou a oferecer benefícios às diaristas, como seguro contra acidentes, buscando proporcionar mais segurança tanto para as profissionais quanto para os clientes. Apesar dos avanços, ainda há um longo caminho a percorrer, e Campanelli estima que as empresas especializadas respondem a uma pequena parte dos serviços prestados no país, com a maioria das diaristas ainda atuando de forma informal.

