Vitórias democratas em Washington e em Estados como Texas e Geórgia aumentam resistência a novos data centers. Investidores temem que isso atrase expansão de capacidade para IA e favoreça as grandes tech.
O desenvolvimento de inteligência artificial e a construção da infraestrutura necessária — leia-se: data centers — andavam em ritmo acelerado nos Estados Unidos. As eleições de meio de mandato, no entanto, podem jogar água nessa fervura. Com o Partido Democrata conquistando não apenas a Câmara e o Senado, mas também governos estaduais em locais como Texas, Ohio e Geórgia, investidores esperam o surgimento de mais obstáculos para a construção de novas instalações.
Essa chamada “onda azul” poderá levar a uma desaceleração nacional na expansão da capacidade computacional voltada à IA. Paradoxalmente, uma desaceleração do ritmo de obras tende a favorecer agentes maiores do setor — empresas com caixa robusto e operações já consolidadas — e também abre uma janela de oportunidade para outros países que ofereçam ambiente regulatório e incentivos mais atrativos.
Até então, havia um receio de que o custo astronômico para erguer tanta infraestrutura acabasse pressionando a lucratividade de empresas de IA emergentes. A crescente resistência de comunidades locais e governos contra a expansão desenfreada da infraestrutura, devido ao consumo intenso de energia e água, ameaça desacelerar o crescimento de empresas menores que dependem de novas instalações para ampliar suas capacidades.
Com o ritmo de novas obras reduzido, custos de crédito, materiais e mão de obra tenderiam a cair. Em paralelo, os data centers já em operação ganhariam um “valor de escassez”: capacidade instalada passaria a ser um ativo ainda mais estratégico e caro de replicar.
Gigantes como Meta, Amazon e Microsoft já controlam complexos de data centers, com histórico operacional, acesso a financiamento e poder de negociação local. Esses fatores facilitam a adaptação a regulações mais rígidas ou a negociação de compensações, o que pode deixar o mercado mais restrito e menos competitivo, em benefício das maiores empresas.
A presidente da Meta, Dina Powell McCormick, disse que construir novos data centers nos EUA ficou mais difícil após os resultados das eleições de meio de mandato. Ela compartilhou uma anedota que indica margem para negociação:
“Tivemos um governador eleito ontem à noite que, inclusive, colocou os data centers como um ponto central de sua plataforma; ele disse: ‘Assim que passarmos pela cerimônia de posse, vamos nos reunir, pois não queremos perder esse investimento em nossa cidade. Não queremos que esses empregos vão para outro lugar’”.
A Meta informou que está construindo um grande data center na Louisiana chamado Hyperion; outro em Ohio, chamado Prometheus; e um terceiro no Texas, como parte de um empreendimento com a BlackRock. Segundo McCormick, projetos já existentes tendem a expandir com mais facilidade porque “possuem um histórico consolidado de alguns anos, e a comunidade tem sentido esses benefícios”.
“Elas não sentiram os custos; na verdade, sentiram os benefícios”.
A executiva também mencionou que a empresa está de olho em outros países onde o ambiente regulatório e de investimentos possa ser mais favorável.
Os resultados das midterms abrem terreno para um movimento que pode favorecer o Brasil como destino de investimentos em data centers. O doutor Alvaro Machado Dias, professor da Unifesp, neurocientista e futurista, avaliou o cenário e apontou implicações práticas:
“Certamente as licenças vão pingar de maneira mais devagar, os custos consequentemente para as empresas vão ser maiores e, definitivamente, os interesses e as preocupações das populações locais espalhadas pelos Estados Unidos vão ser mais escutados”.
“O que muda é muito mais o custo dessa expansão”.
“Se já havia um bom argumento para a instalação de data centers no Brasil, que era o Redata, agora o argumento é melhor ainda. Isso porque está mais caro e mais difícil instalar data centers nos Estados Unidos.”
Na prática, esse cenário pede ação pragmática: acelerar clareza regulatória, oferecer incentivos competitivos, planejar a infraestrutura hídrica e energética e comunicar benefícios locais para comunidades. Para empresas brasileiras e estrangeiras interessadas, o momento exige preparo operacional e capacidade de diálogo com governos e comunidades, transformando um desafio global em oportunidade estratégica.



Fonte: Olhar Digital
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