A recente sessão que aprovou a PEC do Fim da Escala 6×1 na Câmara dos Deputados foi marcada por mais do que apenas debates sobre direitos trabalhistas e produtividade. Nos bastidores, uma manobra astuta da base esquerdista emergiu, visando neutralizar a ofensiva da oposição que poderia transformar o cenário político da votação.
A proposta original partiu do PL, mas rapidamente conquistou a atenção do Psol. O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), apresentou um destaque que sugeria a substituição do modelo de transição gradual proposto pelo relator, deputado Léo Prates (Republicanos-BA), por uma jornada de trabalho 4×3 imediata — quatro dias de trabalho seguidos por três de folga — sem um período de transição.
Essa estratégia tinha o potencial de criar um dilema político para a esquerda, uma vez que seus deputados teriam que decidir entre votar contra uma proposta que seria considerada altamente benéfica aos trabalhadores ou, alternativamente, apoiar uma medida já vista como economicamente inviável.
Na noite de quarta-feira, 27 de maio, a PEC foi aprovada em dois turnos, recebendo 461 votos a favor, estabelecendo uma redução gradual da jornada semanal para 40 horas e o fim da escala 6×1, com um período de transição para a adaptação dos setores econômicos. O texto agora segue para análise no Senado Federal.
Para evitar que os destaques fossem votados separadamente, a base governista apresentou uma emenda aglutinativa praticamente idêntica ao texto original, fazendo alterações que foram, na prática, meramente cosméticas. Onde o parecer inicial mencionava ’60 dias’ para a primeira redução de jornada, o novo texto passou a usar ‘dois meses’, e o termo ’12 meses’ foi substituído por ‘um ano’. O conteúdo central, no entanto, permaneceu inalterado.
Essa mudança teve um impacto estratégico significativo. Ao aprovar a emenda aglutinativa como o novo texto-base da PEC, os destaques anteriores, incluindo o do PL e um do Psol sobre a jornada 4×3, ficaram regimentalmente prejudicados e não puderam ser votados. Assim, a esquerda conseguiu enterrar a possibilidade de análise da jornada 4×3 no plenário sem precisar rejeitá-la explicitamente.
Essa articulação gerou descontentamento entre os parlamentares da oposição, especialmente o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que criticou o governo por tentar manipular a narrativa da votação e “enganar os trabalhadores”. Ele ainda fez referência a um erro matemático presente em uma das propostas, questionando a falta de estudos econômicos que fundamentassem a proposta da escala 4×3.
“Mesmo com que a pessoa que propôs esse projeto simplesmente errou o cálculo matemático no projeto”, declarou. “Eu queria para agora, para amanhã, 4 por 3, mas não. Fizeram uma vigência de 60 dias, diminui duas horas e depois um ano para poder o fim da escala 6 por 1. Por que não colocaram agora? Porque sabem que iria ter efeito econômico.”


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