Pesquisa da Vanderbilt mostra que o 'efeito da segunda refeição' envolve o glucagon. O tipo de café da manhã altera como o corpo controla a glicemia na próxima refeição.
O que você consome no café da manhã pode influenciar a maneira como o organismo administra a glicose na refeição seguinte. Esse é o chamado “efeito da segunda refeição”, um fenômeno metabólico já reconhecido pela comunidade científica, cujo mecanismo começa a ser melhor compreendido a partir de uma nova pesquisa da Universidade Vanderbilt.
Publicado na revista Frontiers in Endocrinology em abril, o trabalho identificou um papel relevante do glucagon, hormônio que atua em conjunto com a insulina na regulação da glicose no sangue. De acordo com os pesquisadores, níveis de glucagon pela manhã podem deixar uma espécie de “memória metabólica” no fígado, alterando a resposta desse órgão à refeição subsequente.
A insulina e o glucagon têm ações opostas: enquanto a insulina favorece a captação e o armazenamento de glicose, o glucagon estimula o fígado a liberar glicose na circulação. A equipe de Vanderbilt investigou se os efeitos do glucagon persistiam após a primeira refeição e poderiam influenciar o metabolismo horas mais tarde.
Nos experimentos, os pesquisadores observaram que, quando os níveis de glucagon estavam elevados pela manhã, o fígado teve maior dificuldade para armazenar glicose na refeição seguinte. Mesmo quando os níveis de insulina e de glicose eram semelhantes no segundo momento analisado, o órgão continuava liberando glicose para o sangue.
Os cientistas associaram esse comportamento à redução dos níveis de glucocinase, enzima que facilita a captação e o armazenamento de açúcar pelo fígado. O resultado sugere que o glucagon pode ter uma participação mais importante no “efeito da segunda refeição” do que se imaginava anteriormente.
Essa descoberta pode ser especialmente relevante para pessoas com diabetes tipo 2. Segundo os pesquisadores, o mecanismo ajuda a explicar por que os níveis de glicose podem aumentar ao longo do dia mesmo quando as medições feitas pela manhã estão dentro de parâmetros considerados normais.
O estudo também pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de tratamento que considerem simultaneamente a ação da insulina e do glucagon, em vez de focar apenas na insulina. A pesquisa foi conduzida por uma equipe do Departamento de Fisiologia Molecular e Biofísica da Vanderbilt. O trabalho foi liderado pela pesquisadora Hannah Waterman, sob supervisão de Alan Cherrington, Jacquelyn Turner e Dale Edgerton.
Os experimentos foram realizados em cães, portanto os resultados ainda não significam que o mesmo mecanismo tenha sido definitivamente demonstrado em seres humanos. Os pesquisadores agora pretendem investigar quais mecanismos moleculares estão por trás dessa memória metabólica e como ela pode ser alterada em doenças metabólicas.
Para quem busca aplicar esse conhecimento de forma prática: a pesquisa reforça a ideia de que as respostas glicêmicas ao longo do dia são interconectadas. Profissionais de saúde poderão, no futuro, considerar o papel do glucagon ao planejar rotinas alimentares e tratamentos. Enquanto os modelos clínicos não estiverem totalmente estabelecidos para humanos, manter acompanhamento médico e discutir ajustes de alimentação e terapia continua sendo essencial.

Fonte: InfoMoney – Mercado
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