O estudo intitulado “A herança da cultura negra na formação do Brasil” destaca a realidade desafiadora do ensino sobre questões raciais nas escolas brasileiras. Um caso emblemático é o de uma aluna de 15 anos, cuja mãe, a advogada Karina Berardo, comenta sobre a raridade do tema em sua formação acadêmica. Para ela, a discussão sobre raça, que antes se limitava à escravidão, começou a ganhar destaque no ensino médio, mas ainda carece de profundidade e amplitude.
Na última terça-feira, 26 de maio, um estudo inédito foi divulgado, revelando que cerca de 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio não percebem a presença do debate sobre desigualdades raciais em suas salas de aula. Apesar das legislações 10.639/2003 e 11.645/2008, que visam garantir o ensino da história e cultura africana e indígena, a educação antirracista ainda não se firmou como uma experiência comum nas escolas.
A professora Flávia Rios, socióloga da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Cebrap, destaca que, embora a legislação exista, sua aplicação é irregular e depende de iniciativas locais. Ao longo dos últimos 20 anos, projetos foram implementados, mas a universalização da educação antirracista continua sendo um desafio. “Precisamos de uma legislação mais robusta e de um currículo que inclua a diversidade étnico-racial de forma consistente”, afirma.
A pesquisa revela um descompasso entre o que os professores dizem fazer e o que os alunos reconhecem. Enquanto 81,6% dos professores do 9º ano afirmam abordar as desigualdades raciais, apenas 46,6% dos estudantes confirmam essa percepção. Eliane Firmino, também do Cebrap, ressalta que essa discrepância indica limitações na efetividade das ações educativas.
Outro ponto importante abordado no estudo é que a percepção sobre o ensino de desigualdades raciais varia entre diferentes perfis de estudantes e redes de ensino. Nas escolas privadas, 60,8% dos alunos do ensino fundamental afirmam que o tema não é abordado, em comparação a 51,4% nas escolas públicas. Essa diferença evidencia a necessidade de um olhar atento para a educação antirracista em todas as instituições de ensino.
Para a coordenadora do Programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, Suelaine Carneiro, a fiscalização é crucial. “Precisamos de monitoramento e ações coordenadas para garantir que todos os professores, independentemente de sua etnia, se engajem com a temática”, defende. A educação antirracista é uma formação cidadã que deve ser acessível a todos os grupos sociais, promovendo a inclusão e a diversidade no ambiente escolar.
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