A carne bovina brasileira não enfrentará tarifas impostas pelos Estados Unidos, mas o setor de exportação se depara com um cenário desafiador no seu principal mercado, a China. Essa análise foi feita pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), Roberto Perosa, durante o lançamento da 11ª edição do Beef Report, realizado em Brasília.
Em relação ao mercado americano, que é o segundo maior destino da carne brasileira em 2025, Perosa destacou que não há impacto direto sobre o produto, e que a entidade está monitorando as negociações entre os dois governos.
“O fato é que nós não recebemos a tarifa. Estamos acompanhando o desenrolar das ações para avaliar quando tiver impacto. Hoje ainda não tem”, disse.
A principal preocupação do setor, segundo Perosa, está nas salvaguardas impostas pela China, que terão validade de três anos. Ele explicou que essa medida é unilateral e que a indústria brasileira não pode resolvê-la.
“O governo brasileiro tentou negociar durante um período, mas não está na mão da indústria brasileira uma solução. Nós temos que passar por esse período”, afirmou.
O efeito das salvaguardas já se reflete no cotidiano dos frigoríficos. Com a exportação sendo crucial para a formação de preços e margens em toda a cadeia, cada empresa terá que adotar sua própria estratégia para superar esse período.
“Alguns darão férias coletivas, outros utilizarão layoffs. Pode ser que haja novos movimentos de aquisição de grupos menores por grupos maiores”, disse Perosa. “Não há uma receita pronta. Para pacientes diferentes, não existe a mesma medicação.”
Perosa também reconheceu que a preocupação é generalizada no setor, e que a produção pode ser reduzida para evitar a oferta a preços não rentáveis.
“Em alguns momentos a gente tem notícias de que já houve demissões em empresas”, afirmou. “Quem está mais capitalizado consegue segurar um tempo maior. Quem está menos capitalizado tem que vender mais barato para outros mercados.”
Na busca por diversificação, o presidente da ABIEC mencionou o Japão e a Coreia do Sul como mercados maduros e de alto consumo que o Brasil ainda busca acessar, com boas perspectivas de abertura no futuro próximo. Ele também citou o Vietnã, que foi recentemente aberto, mas ainda está em desenvolvimento. As vendas para esse país devem fechar o ano entre 15 mil e 20 mil toneladas, um volume pequeno se comparado às 3,5 milhões de toneladas exportadas em 2025.
“Não tem nenhum outro mercado que absorverá essa demanda. Isso vai ser dividido entre alguns mercados, mas não há uma grande solução única”, concluiu.
Esse momento de incerteza comercial contrasta com os resultados de 2025, que foi considerado um ano histórico pelo Beef Report, elaborado em parceria com a consultoria Athenagro. O Brasil se tornou, pela primeira vez, o maior produtor mundial de carne bovina, com 12,35 milhões de toneladas equivalente carcaça (TEC), além de um abate de 47,79 milhões de bovinos e um faturamento recorde de US$ 18 bilhões em exportações, que foram enviadas a 177 países. A cadeia produtiva movimentou R$ 1,159 trilhão, representando cerca de 9% do PIB.
Para os próximos dez anos, a ABIEC projeta uma produção de 15,18 milhões de TEC e exportações de 7,09 milhões de TEC até 2035, o que representa um aumento de 56,5% em relação a 2025, sustentado por ganhos de produtividade e pela abertura de novos mercados.
“Os números comprovam que é possível produzir mais, com mais eficiência, sustentabilidade e competitividade”, afirmou Perosa.
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