A PF encontrou R$ 471 mil em moeda estrangeira na casa do senador Jaques Wagner. Ele alega que o valor são sobras de diárias oficiais, expondo uma brecha: o Senado não exige devolução do dinheiro não usado.
O Senado enfrenta uma lacuna significativa em suas normativas, pois atualmente não existem regras estabelecidas para a devolução de diárias não utilizadas em viagens oficiais. Essa ausência de regulamentação se tornou evidente após a Polícia Federal localizar, na residência do senador Jaques Wagner (PT-BA), a quantia de US$ 55 mil e 33 mil euros, totalizando cerca de R$ 471 mil.
Jaques Wagner justificou que esse montante é resultado de sobras de diárias recebidas durante missões oficiais.
O Senado confirmou que “não há disposição normativa sobre a devolução de valor não utilizado de diárias”, esclarecendo que a devolução é obrigatória apenas em casos de cancelamento ou retorno antecipado das viagens.
O funcionamento das diárias no Senado permite que os pagamentos sejam realizados por meio de ordem bancária, com crédito em conta ou, se preferido, em espécie. Essa verba destina-se a cobrir custos relacionados a hospedagem, alimentação e transporte durante deslocamentos que ocorrem fora de Brasília ou do Estado de origem dos parlamentares.
Por ter um caráter indenizatório, essas diárias não estão sujeitas à cobrança de Imposto de Renda. Em 2026, os senadores receberam US$ 656,46 por dia em missões fora da América do Sul, totalizando R$ 3,3 mil, considerando a cotação do dólar a R$ 5,16. Para outros destinos internacionais, o valor é de US$ 557, ou aproximadamente R$ 2,8 mil.
Nas viagens nacionais, as diárias variam de R$ 916 para grandes cidades a R$ 726 para municípios com até 200 mil habitantes, com atualizações anuais. Além dos senadores, servidores também têm direito a diárias, com valores que variam conforme a função. Somente entre janeiro e 18 de junho deste ano, o Senado já desembolsou mais de R$ 1 milhão em diárias para viagens internacionais.
Sobre o senador Jaques Wagner, desde 2019 ele recebeu um total de R$ 336,9 mil em diárias, valor que é inferior ao montante apreendido em seus endereços. O parlamentar explicou que parte do dinheiro foi adquirida por meios próprios. Entre suas viagens, destaca-se uma visita à fábrica da BYD na China em maio deste ano, pela qual ele recebeu R$ 15 mil, e outra a Washington, em julho de 2025, com repasse de quase R$ 25 mil.
Durante seu mandato, Jaques Wagner realizou 30 viagens oficiais ao exterior, passando por países como Japão, Portugal, Emirados Árabes Unidos e Egito. A Polícia Federal está investigando suspeitas de recebimento de valores do Banco Master, de Daniel Vorcaro, além da aquisição de um apartamento em Salvador, avaliado em R$ 2,5 milhões.
As investigações também apontaram um pagamento de R$ 3,5 milhões da empresa de Augusto Lima ao “núcleo familiar” de Jaques Wagner. Segundo o ministro André Mendonça, relator do caso, essa informação evidencia uma ligação entre as partes. Augusto Lima foi preso na Operação Compliance Zero, que investiga fraudes relacionadas a carteiras de crédito vendidas pelo Banco Master ao BRB.
Em uma declaração à Band News TV, Jaques Wagner afirmou que nunca recebeu dinheiro do Banco Master, mas admitiu ter solicitado a Augusto Lima que comprasse um apartamento, com a intenção de adquiri-lo posteriormente. “Eu tinha interesse de dar, de ajudar a minha filha a comprar um apartamento desses”, disse. “Como Guga, o Augusto Lima, é um investidor, eu disse a ele: ‘você pode comprar? Depois eu vou recomprar’ porque o apartamento está em construção. E eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar o apartamento ou ela financiar.”
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