A Glass Cannon Network (GCN) é um dos nomes mais reconhecidos no universo dos actual plays — gravações de sessões de RPG de mesa — desde 2015, quando o segmento ainda dava seus primeiros passos. Para o cofundador Troy Lavallee, boa parte desse reconhecimento tem origem em uma escolha deliberada: nunca jogar Dungeons & Dragons.
“Começamos com ‘vamos jogar o jogo que conhecemos e amamos [Pathfinder], porque se mostrarmos nosso entusiasmo por ele, os ouvintes vão nos acompanhar — mesmo que nunca tenham jogado'”, explicou Lavallee em entrevista.
Segundo ele, a rede sempre se surpreendeu com a quantidade de ouvintes que nunca tiveram intenção de jogar qualquer RPG. Foi apenas durante a pandemia, em 2020, que a GCN decidiu ampliar seu repertório. Lavallee percebeu que praticamente todos os outros canais do segmento se concentravam em D&D, enquanto a rede seguia com Pathfinder. A decisão foi expandir para outros sistemas.
Desde então, a GCN produziu campanhas e histórias em sistemas como Blades in the Dark, Traveller, Shadowdark e Dune RPG, cobrindo uma variedade de estilos, gêneros e tons. “Isso virou nossa identidade para nos diferenciar dos demais. Se um grupo faz D&D e outro faz Pathfinder, nós fazemos todo o resto”, afirmou Lavallee.
Outros canais relevantes do segmento, como Dimension 20 e Critical Role, também diversificam seus conteúdos, mas mantêm o D&D como sistema principal.
Tour ao vivo com Call of Cthulhu
Para ampliar o reconhecimento da marca, a GCN está levando seu mais novo programa a nove cidades dos Estados Unidos até dezembro, com apresentações ao vivo baseadas no sistema Call of Cthulhu — um RPG de horror cósmico inspirado nas obras do escritor H.P. Lovecraft.
A escolha do sistema não foi aleatória. Lavallee destacou que, ao contrário de outros títulos de nicho, o nome Lovecraft já é conhecido por um público além dos fãs de RPG, o que facilita a divulgação do espetáculo.
“Mesmo para grupos em nossa posição, é uma luta constante por visibilidade. Quem está à nossa frente tem talentos imensos, grandes empresas e milhões de dólares por trás. Hoje em dia, competir com isso é quase impossível. Mas enquanto o público talvez não conheça a Glass Cannon ou Call of Cthulhu, pelo menos conhece Lovecraft”, disse ele.
Em Call of Cthulhu, os jogadores não vencem no sentido tradicional. O foco está na sobrevivência e na manutenção da sanidade dos personagens, que atuam como investigadores tentando escapar de ameaças sobrenaturais e incompreensíveis. Lavallee é o Mestre de Jogo do Call of Cthulhu Live e adiantou que mortes de personagens na primeira noite são uma possibilidade real.
O elenco de personagens vai se renovando a cada cidade visitada pela turnê. Personagens que sobrevivem podem retornar em apresentações futuras — inclusive na convenção GenCon, em Indianápolis —, enquanto aqueles que enlouquecem podem precisar de meses de “recuperação” antes de voltar à ação. Não é necessário ter assistido a apresentações anteriores para acompanhar as novas, embora haja uma linha narrativa conectando todos os espetáculos.
Originalmente, a proposta era que todos os personagens fizessem parte de uma agência governamental de investigação sobrenatural. Lavallee, porém, optou por uma abordagem diferente: os personagens podem vir de qualquer contexto social — um caixa de supermercado, um DJ de rádio — e todos compartilham uma experiência inexplicável da infância que os une quando são convocados por uma organização clandestina para investigar algo ou alguém.
Ingressos para o Call of Cthulhu Live ainda estão disponíveis. Para quem não está na rota da turnê, a GCN também oferece o programa Get in the Trunk, que utiliza o sistema Delta Green em sete temporadas de mistérios de horror lovecraftiano.
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