O diretor de investimentos da Bitwise, Matt Hougan, defende que o mercado endereçável do Bitcoin tem condições de superar o do ouro — atualmente avaliado em cerca de 20 trilhões de dólares — caso a fragmentação geopolítica global continue avançando. A tese foi apresentada em um memorando publicado em abril de 2026 e ganhou força diante do comportamento recente do ativo durante períodos de tensão internacional.
Entre 27 de fevereiro e 10 de abril de 2026, o Bitcoin registrou alta de 12%, enquanto o S&P 500 recuou 1% e o ouro caiu 10% no mesmo intervalo — período marcado por tensões elevadas entre Irã e Estados Unidos. Durante esse movimento, o Bitcoin superou brevemente a marca de 75.000 dólares e sustentou a posição de forma que o ouro, historicamente o ativo preferido em momentos de crise, não conseguiu acompanhar.
A tese de Hougan: duas apostas empilhadas
No documento, Hougan estrutura a avaliação do Bitcoin em dois pilares distintos. O primeiro é a tese consolidada do “ouro digital”: à medida que instituições diversificam seus portfólios, o Bitcoin tende a capturar uma fatia do mercado de reserva de valor dominado pelo metal precioso. O segundo pilar é descrito pelo executivo como uma opção de compra fora do dinheiro — a possibilidade especulativa de o Bitcoin se tornar uma camada de liquidação neutra para países excluídos ou afastados do sistema Swift.
A lógica por trás dessa segunda aposta se apoia em dados concretos. Após as sanções impostas à Rússia em decorrência da guerra com a Ucrânia em 2022, a participação do yuan nas liquidações comerciais russas saltou de menos de 2% para quase 40% no início de 2024. O comércio bilateral entre Rússia e China passou a ser liquidado em mais de 99% em rublos e yuan — o que, segundo Hougan, demonstra que a desdolarização deixou de ser teoria para se tornar dado documentado.
Irã e o Estreito de Ormuz entram na equação
O ângulo iraniano reforça a tese. Conforme reportado pelo Financial Times, um porta-voz ligado às exportações de petróleo do Irã sugeriu a cobrança de uma taxa de 1 dólar por barril — paga em Bitcoin — para navios que transitam pelo Estreito de Ormuz. A proposta, independentemente de se concretizar, sinaliza a direção para a qual os países sob pressão de sanções estão olhando.
Hougan destaca que o Bitcoin apresenta dois atributos que o ouro não possui: a capacidade de cruzar fronteiras instantaneamente e a possibilidade de ser liquidado sem a intermediação de um banco. Ambas as características tornam o ativo atrativo em cenários de ruptura do sistema financeiro tradicional.
Capital institucional acompanha o movimento
Os ETFs de Bitcoin à vista registraram entradas de capital mesmo durante períodos de estresse geopolítico, indicando que grandes alocadores passaram a tratar o ativo como uma proteção complementar — e não substituta — aos refúgios tradicionais. Com base na projeção de que o Bitcoin possa funcionar simultaneamente como reserva de valor e ativo de liquidação, Hougan aponta um preço-alvo de 1 milhão de dólares como uma base plausível quando comparado à capitalização total do mercado do ouro.
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