Washington aponta o sistema de pagamentos brasileiro como ameaça a gigantes americanas do setor financeiro. O caso acende alerta sobre tensões comerciais entre Brasil e EUA.
Recentemente, o escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) expressou preocupações em relação ao sistema de pagamentos brasileiro, conhecido como Pix. As acusações incluem o argumento de que o Pix estaria prejudicando injustamente as empresas de pagamento eletrônicas estadunidenses, como MasterCard, Visa e WhatsApp Pay. Essa ação se insere em um contexto mais amplo de disputas comerciais entre os dois países.
No documento divulgado, o USTR alega que as políticas relacionadas ao Pix favorecem o sistema de pagamentos brasileiro em detrimento de concorrentes internacionais. “Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial concedido ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de tarifas”, afirma o relatório.
Além disso, a conselheira jurídica geral do USTR, Jennifer Thornton, enfatizou que o Banco Central do Brasil, ao atuar como regulador e operador do Pix, cria um conflito de interesses. O relatório sugere que o Brasil está favorecendo sua “campeã nacional” através de práticas que poderiam ser consideradas desleais.
“O PIX mostrou que uma infraestrutura pública pode deslocar o modelo privado que extrai tarifas. E esse modelo está se espalhando, como na Índia”, explica Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor do Instituto de Economia da Unicamp.
A investigação que levou a este relatório foi iniciada em julho de 2025, durante a administração de Donald Trump, e o governo brasileiro agora terá até 15 de julho para responder a essas alegações. As preocupações levantadas pelo USTR incluem a possibilidade de que os EUA adotem medidas corretivas caso considerem que suas empresas estão sendo prejudicadas. Essas ações podem incluir a implementação de tarifas sobre produtos brasileiros.
O professor Zahluth argumenta que a ação dos EUA é uma tentativa de garantir a manutenção dos lucros das empresas estadunidenses no setor de pagamentos. Ele ressalta que o Pix já movimenta mais recursos do que os cartões de crédito tradicionais nos EUA, e que o sistema brasileiro oferece uma alternativa pública e gratuita que compete diretamente com as redes privadas.
O relatório também menciona que o Banco Central exige que instituições financeiras com mais de 500 mil contas ofereçam o Pix, além de destacar a necessidade de que esse serviço seja promovido em pé de igualdade com outras opções de pagamento.
Por fim, o economista enfatiza que o debate sobre o Pix não é apenas uma questão de concorrência, mas também envolve aspectos de soberania e da capacidade do Brasil de desenvolver suas próprias soluções financeiras, sem a interferência de interesses estrangeiros.
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