O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, determinou o bloqueio dos bens do ex-deputado Eduardo Cunha até o limite de R$ 6 milhões. Segundo os investigadores da Operação Transparência, da Polícia Federal (PF), esse é o valor que Cunha, mesmo sem exercer cargo eletivo, teria destinado, por meio de 21 emendas parlamentares, a municípios de Minas Gerais no âmbito do orçamento secreto, caso revelado em 2021.
Eduardo Cunha foi cassado em setembro de 2016 por quebra de decoro parlamentar. A acusação formal foi de que ele mentiu à CPI da Petrobras, em 2015, ao negar ser titular de contas no exterior.
“As evidências reunidas até o momento indicam que Eduardo Cunha atuava como um agente privado com influência política equivalente ou até superior a dos parlamentares em exercício, direcionando recursos federais sem qualquer autorização institucional”, afirmou Flávio Dino em sua decisão de 40 páginas.
Após quatro eleições vitoriosas pelo Rio de Janeiro, Eduardo Cunha tenta voltar à Câmara dos Deputados por Minas Gerais nas eleições deste ano. Em 2022, o ex-presidente da Casa disputou uma vaga por São Paulo, mas acabou derrotado nas urnas.
Cunha é o segundo ex-parlamentar a ter bens bloqueados por determinação de Flávio Dino na última semana. Na sexta-feira (10), o ministro determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões em bens do presidente do PL e ex-deputado, Valdemar Costa Neto, por suspeita de que ele interferiu na destinação de emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. A defesa de Valdemar afirmou que a decisão se baseia em “premissas frágeis, inferências subjetivas e na indevida criminalização da atividade político-partidária”.
A Operação Transparência investiga se Eduardo Cunha e Valdemar Costa Neto utilizavam a mesma operadora dentro da Câmara dos Deputados para influenciar a destinação de emendas parlamentares. A suspeita recai sobre Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara Arthur Lira. Ela trabalhou no gabinete de Lira entre março de 2021 e o início de 2025.
Tuca foi alvo de busca e apreensão em dezembro de 2025 e teve o celular periciado pelos investigadores. No aparelho, a Polícia Federal afirma ter encontrado elementos que apontariam para “a existência de um arranjo decisório paralelo para a destinação de verbas públicas, no qual Eduardo Cosentino da Cunha, desprovido de mandato, aparece como vetor relevante de definição e remanejamento de emendas”.
“No caso analisado, um não parlamentar, ex-deputado cassado, potencial candidato nas próximas eleições, dispõe dos serviços de Mariângela Fialek e da liberalidade política para destinar recursos conforme seus interesses, em sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato”, pontua Dino na decisão.
A análise dos diálogos revela que Tuca “não era mera executora ocasional”, mas uma “agente ativa e consciente”, que desempenhava papel de “consultora, facilitadora e implementadora” das demandas repassadas por Eduardo Cunha. Os investigadores acreditam que Tuca realizava o reajuste de emendas a partir do direcionamento do ex-parlamentar, em um “claro e consciente processo de centralização operacional”.
Em seu depoimento à PF, Tuca afirmou que evita conversar com deputados sobre a destinação de emendas, porque essa seria uma atribuição da liderança partidária. Segundo a investigação, Eduardo Cunha, mesmo sem mandato, mantinha um canal direto de diálogo com a investigada, que não era oferecido à maioria dos parlamentares.
A PF considera que o caso revela um “gravíssimo desvio de finalidade”, já que emendas criadas para atender demandas de representantes eleitos estariam submetidas a um “esquema informal” coordenado por alguém que não responde mais ao eleitorado nem ao Congresso.
A defesa de Eduardo Cunha declarou que ele desconhece irregularidades na tramitação de emendas parlamentares. A investigação aponta que Cunha e Valdemar Costa Neto teriam utilizado a mesma operadora dentro da Câmara para influenciar a destinação das emendas.
“Eduardo Cunha desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas. Cabe ressaltar que a própria PGR considerou prematuro o bloqueio das contas de Eduardo Cunha. Sua defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar”, afirma a defesa.
Além disso, a defesa de Cunha destacou que ele não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas na decisão do ministro Flávio Dino, que bloqueou bens de Cunha até o limite de R$ 6 milhões.
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