Juros altos ampliam a distância entre emissores sólidos e endividados; investidores devem checar quem recebe os recursos. Veja como o gestor monitora riscos e prioriza empresas com balanços mais resilientes.
Os juros elevados por um período prolongado têm ampliado a distância entre empresas com maior capacidade de pagar suas dívidas e aquelas que enfrentam dificuldades para refinanciá-las. Para quem investe em fundos de crédito privado, esse cenário reforça a necessidade de olhar com critério quem recebe os recursos e como o gestor monitora os riscos da carteira.
Daniela Gamboa, CIO de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos, aponta que o ambiente atual trouxe um ponto de inflexão para emissores com balanços mais resilientes em comparação aos mais endividados.
“O cenário de juros elevados prolongados criou um divisor de águas entre a resiliência dos balanços e a capacidade de refinanciamento dos emissores.”
Empresas de alta qualidade de crédito, com baixa alavancagem e amplo acesso ao mercado, continuam gerando caixa e renovando dívidas a custos competitivos. Em contrapartida, emissores de maior risco sentem mais o peso dos juros, o que leva a reestruturações pontuais e a uma seletividade maior por parte dos investidores.
A gestora foi reconhecida com o segundo lugar na categoria Melhor Fundo de Renda Fixa Crédito Privado na premiação Outliers 2026 com o fundo SulAmérica ESG, um avanço em relação à terceira colocação na edição anterior. A terceira edição do evento será realizada no dia 28 de janeiro, no Teatro B32, na Faria Lima, em São Paulo (SP).
A evolução do reconhecimento do fundo, segundo a executiva, decorre de um processo de investimento consistente, seleção disciplinada de emissores e gestão ativa capaz de aproveitar oportunidades sem abrir mão da preservação de capital.
As oportunidades, na avaliação da gestora, aparecem especialmente no mercado secundário, onde títulos já emitidos são negociados. Movimentos pontuais de reprecificação, como os observados pela gestora em março e abril de 2026, podem permitir compras com remunerações mais atrativas.
“Seguimos bastante confortáveis principalmente com os setores bancário e de infraestrutura (setores defensivos como energia elétrica, saneamento e transporte/rodovias). Também seguimos mais restritivos aos emissores de setores como consumo discricionário, saúde e incorporação.”
Selecionar um título é apenas uma etapa. A gestora combina análise financeira detalhada, critérios ambientais, sociais e de governança e acompanhamento contínuo das empresas. Segundo Gamboa, o monitoramento constante busca identificar movimentos que se desviem das projeções iniciais.
Trabalhar com ativos líquidos permite reduzir ou encerrar posições quando surgem sinais de deterioração, buscando vender a preços ainda atraentes. A gestão também procura aproveitar ampliações de spreads — a remuneração adicional exigida pelo mercado para assumir o risco de crédito — para elevar o retorno dos fundos.
Os critérios ESG funcionam como camada adicional: com apoio de consultoria externa, emissores recebem notas de zero a dez considerando transição energética, relações trabalhistas, conformidade regulatória e governança. Nos fundos da família ESG, só entram empresas com nota igual ou superior à referência do setor.
Gamboa relata que esses filtros já levaram a evitar uma debênture de uma incorporadora que enfrentou dificuldades financeiras pouco depois. Em outro caso, um evento ambiental e social crítico motivou a venda de um título; cerca de dois anos mais tarde, o emissor entrou em recuperação extrajudicial.
“Mais do que só avaliar os emissores no momento da aquisição do título, vemos muito valor no nosso processo de monitoramento contínuo, focado na identificação de movimentos de descolamento das projeções.”
Para o investidor, a primeira decisão é identificar quanto risco está disposto a assumir. A categoria abriga fundos que vão de exposição maior a bancos a produtos com emisssores high yield; por isso, avalie a experiência da equipe e a atuação em momentos adversos. Verifique se o fundo é excessivamente concentrado em poucos emissores e se o prazo de resgate é compatível com seu horizonte.
“É sempre importante o investidor verificar o comportamento do time de gestão do fundo em ciclos anteriores de estresse, e a capacidade comprovada de análise de risco e gestão ativa.”
Em suma, combine seu perfil de risco com a capacidade do gestor de selecionar empresas, acompanhar mudanças nos balanços e ajustar a carteira ao longo do ciclo de crédito. Esse conjunto de disciplinas tende a ser a principal defesa em um cenário de juros elevados e volatilidade.
Fonte: InfoMoney – Mercado
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