Em 2026, protótipos avançam, mas eVTOLs seguem em testes e certificação. Indústria prevê voos comerciais se superar barreiras técnicas, regulatórias e de produção.
O ano é 2026 e a imagem do carro voador ainda é, em grande parte, protótipo. Projetos avançados existem, mas permanecem em fases de teste e certificação. A expectativa do setor é de que esses veículos elétricos de decolagem e pouso vertical — os eVTOLs — saiam do laboratório para operações comerciais nos próximos anos, desde que superem obstáculos técnicos, regulatórios e de produção.
Em declarações diretas, Fernando Martini Catalano, professor do departamento de Engenharia Aeronáutica e diretor da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), sintetizou a convicção do meio:
“Vai acontecer”
Do ponto de vista industrial e regulatório, a corrida principal envolve a Joby Aviation (EUA) e a Eve Air Mobility, braço ligado à Embraer (Brasil). Ambas trabalham para cumprir requisitos de autoridades como FAA, Anac e EASA e para transformar protótipos em veículos certificados e operacionais.
A Joby desenvolve o Joby S4, com capacidade para um piloto e quatro passageiros. O S4 utiliza um sistema tilt-rotor com seis rotores basculantes que mudam de posição para decolagem/pouso vertical e para voo horizontal de cruzeiro. O projeto entrou na fase final de certificação de tipo junto à FAA; aeronaves em conformidade estão realizando voos de teste e voos de crédito de certificação, com pilotos da própria FAA conduzindo avaliações. A Joby também participa do programa federal eIPP nos EUA e já completou voos autônomos experimentais que cruzaram o país. Para viabilizar produção em massa, a empresa firmou aliança com a Toyota para aplicar técnicas de montagem automotiva. Hoje a expectativa é que voos demonstrativos e experimentais com passageiros comecem entre o final de 2026 e o começo de 2027 nos EUA, e que em Dubai se inicie operação comercial paga.
A Eve Air Mobility testa o Eve 100, também para um piloto e quatro passageiros. Seu design adota a configuração “lift + cruise” — rotores dedicados ao empuxo vertical e hélice traseira para o voo horizontal —, uma escolha que prioriza simplicidade mecânica e manutenção mais barata. O primeiro protótipo em escala real passou por testes de voo iniciais bem-sucedidos e o Eve 100 completou voos de transição parcial, acionando a propulsão traseira para voo horizontal. Os testes ocorrem em Gavião Peixoto (SP), com coleta de dados de aerodinâmica, ruído e telemetria. O próximo passo é a construção de uma frota de seis protótipos para a campanha de certificação junto à Anac, FAA e EASA. A produção em massa foi planejada para Taubaté (SP), com capacidade projetada para montar até 480 unidades por ano, e a expectativa da liderança da Embraer e da Eve é obter certificação final e iniciar serviço comercial no final de 2027 ou ao longo de 2028.
O mercado futuro tem projeções ambiciosas: o banco Morgan Stanley estima movimentação de US$ 1 trilhão (R$ 5 trilhões) até 2040 para eVTOLs e Mobilidade Aérea Urbana, considerando passageiros, logística e infraestrutura. Contudo, o mesmo banco reduziu em 75% as estimativas para 2030, revisando o número para US$ 12 bilhões (R$ 60 bilhões), citando barreiras regulatórias mais altas que o previsto.
Na raiz dos desafios técnicos está a energia. Em entrevista, Fernando Castro Pinto, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da UFRJ, destacou a questão central das baterias e do armazenamento de energia:
“O maior desafio tecnológico é semelhante ao desafio tecnológico do carro elétrico, que é o acúmulo de energia. Ou seja, a bateria”
“Quanto mais energia eu preciso, mais bateria eu vou usar. Quanto mais bateria eu vou usar, mais pesado vai ficar. Quanto mais pesado, mais energia será necessária”
Esses limites químicos e de massa representam o principal ponto a ser vencido para que os eVTOLs alcancem autonomia, segurança e custo-operacional compatíveis com operações comerciais em grande escala. Enquanto isso, o setor avança entre testes, certificações e construção de capacidade produtiva: o futuro dos carros voadores depende de uma combinação de engenharia, regulação e modelos industriais escaláveis.



Fonte: Olhar Digital
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