O setor jurídico atravessa uma virada decisiva na relação com a inteligência artificial. Segundo o consultor Olivier Chaduteau, fundador de uma firma de consultoria nativa em IA com sede em Paris, os escritórios de advocacia chegaram a um terceiro estágio na adoção da tecnologia — e agora não há mais espaço para posturas simbólicas.
Em entrevista ao portal Artificial Lawyer, Chaduteau traçou um panorama histórico em três fases. Na primeira, advogados simplesmente ignoraram a IA, tratando-a como irrelevante para o trabalho especializado. Na segunda, organizações compraram licenças de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) principalmente para sinalizar movimento a sócios e clientes, sem grandes mudanças práticas. Agora, no terceiro estágio, os escritórios reconhecem que é hora de colocar as ferramentas disponíveis para trabalhar de verdade.
Mudanças Operacionais Exigem Decisões Políticas e Estratégicas
Para Chaduteau, engajar-se com a IA em nível operacional exige que os escritórios se concentrem em gestão de mudanças, escolha de modelos operacionais adequados e reforma dos modelos de negócio. Isso implica reescrever fluxos de trabalho, retreinar advogados, estabelecer padrões de uso da IA e definir em quais etapas a revisão humana ainda é necessária. O consultor reconhece que essas são questões muito mais complexas do que simplesmente escolher qual LLM ou serviço jurídico especializado adquirir.
Cobrança por Hora Pode Chegar ao Fim
A presença da IA nos fluxos de trabalho jurídicos levanta questionamentos sobre um dos pilares históricos do setor: a cobrança por hora. Se escritórios passam a usar IA para reduzir o tempo gasto na elaboração de documentos, revisão de contratos e pesquisa jurídica, a correlação tradicional entre tempo do advogado e receita se enfraquece.
Chaduteau aponta que, nesse cenário, os escritórios terão de migrar para o que ele chama de precificação por valor — um modelo já considerado e adotado por parte do setor, independentemente de questões tecnológicas. Os gestores teriam dois caminhos: manter a IA dentro dos modelos de cobrança atuais pelo maior tempo possível, otimizando a relação entre custo e receita; ou redesenhar serviços e preços em função de um fluxo de trabalho otimizado pela automação.
Na avaliação do consultor, serão os próprios clientes que forçarão a mudança. Algum player — provavelmente uma empresa nova, livre das práticas tradicionais de cobrança — passará a oferecer serviços de maior valor a partir de ganhos de eficiência proporcionados pela IA, obrigando o restante do mercado a responder. O movimento é descrito por Chaduteau como um caso clássico de disrupção tecnológica.
Departamentos Jurídicos Corporativos Sob Pressão
Departamentos jurídicos internos de grandes empresas também enfrentam cobranças crescentes para demonstrar como estão implementando a IA em seus processos, em linha com outras áreas do negócio. Chaduteau avalia que essa pressão externa tende a ser mais determinante, no longo prazo, do que qualquer entusiasmo interno. A exigência por evidências de competência e eficiência não é exclusiva das equipes jurídicas — o mesmo fenômeno ocorre em toda a estrutura de empresas que investiram de forma significativa em IA.
Capacidade em IA Pode Ser Critério de Seleção de Escritórios
O consultor acredita que a competência em inteligência artificial se tornará parte dos critérios de seleção de escritórios pelos clientes, incluindo processos de candidatura e avaliação contínua durante a contratação de serviços. Escritórios poderão ser solicitados a detalhar quais tarefas são apoiadas por IA, quais salvaguardas estão em vigor, como a confidencialidade dos clientes é protegida nesses sistemas e qual o impacto mensurável das ferramentas na velocidade e na qualidade dos serviços prestados.
IA Como Ferramenta de Valorização do Trabalho Jurídico
Chaduteau não enquadra a tecnologia apenas como instrumento de redução de custos. Para ele, a IA abre espaço nas rotinas dos advogados para atividades mais relevantes e intelectualmente satisfatórias, ao reduzir tarefas repetitivas com baixo retorno em termos de realização profissional. Em grandes escritórios, isso aponta para usos específicos por área de prática e supervisão básica, com cada caso de uso apresentando suas próprias particularidades.
Na visão do consultor, os escritórios que mais se beneficiarão serão aqueles que tratarem a IA como uma decisão de gestão antes que ela se torne uma pressão externa. Isso envolve implementação disciplinada, comprovação de valor junto aos clientes, tratamento cuidadoso de confidencialidade e soberania dos dados, e disposição para avaliar se o modelo de cobrança ainda é adequado ao trabalho realizado.
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