Nos dias de hoje, a pergunta que ecoa é: qual é a chance de nossa democracia sobreviver mais 20 anos? Um estudo recente lança luz sobre essa questão, revelando uma conexão intrigante entre a Inteligência Artificial (IA) e a estabilidade democrática no Brasil.
De acordo com pesquisas do Journal of Democracy, a solidez de uma democracia não está atrelada ao PIB bruto, mas sim ao PIB produtivo. Isso significa que a verdadeira riqueza de uma nação é gerada através de atividades econômicas reais, como indústria, serviços e inovação, e não pela mera extração de recursos concentrados, como petróleo, gás ou minérios.
A regra é clara: quando o PIB produtivo ultrapassa US$ 20 mil por pessoa, as chances de sobrevivência da democracia aumentam significativamente, alcançando impressionantes 97%. No entanto, abaixo desse patamar, o risco se torna alarmante. Economias diversificadas, que garantem a circulação da riqueza, criam um sólido colchão institucional que protege a democracia.
Atualmente, o Brasil está na linha tênue. O nosso PIB produtivo, descontando a forte dependência de commodities, gira em torno de US$ 20.770. Estamos tecnicamente na zona de segurança, com 97% de chances de estabilidade, mas sem margem para erros.
É aqui que a Inteligência Artificial entra em cena. Se a IA, especialmente em sua forma mais avançada, se transformar no novo “petróleo digital”, concentrando riqueza nas mãos de poucas plataformas, ela poderá atuar como um recurso extrativo, drenando a renda de toda a economia e comprometendo as instituições democráticas. Esse cenário poderia fazer com que a nossa taxa de estabilidade democrática caísse de 97% para 75% ou até menos.
No entanto, não precisamos sucumbir a essa possível maldição. Podemos moldar a Inteligência Artificial para que ela seja uma bênção, aumentando a produtividade de todos e não apenas a renda de poucos. Para isso, é fundamental implementar políticas que promovam a liberdade econômica, garantindo competição e interoperabilidade, além de um sistema antitruste eficaz.
Devemos também utilizar o poder de compra do Estado para fomentar infraestrutura aberta e focar na difusão da tecnologia, especialmente para pequenas e médias empresas, através de instituições como BNDES, Sebrae e SENAI. Uma futura política de Renda Básica Universal pode ser necessária para apoiar aqueles cujos empregos forem automatizados pela IA, complementada por legislações que protejam a população dos efeitos negativos já presentes, como as deepfakes eleitorais.
A mensagem é clara: a Inteligência Artificial não é um destino inevitável. Se utilizada de maneira a ampliar a concentração de riqueza, ela será um recurso corrosivo para nossa democracia. Porém, se direcionada para incrementar a produtividade e a prosperidade de muitos, ela se tornará a base de uma democracia mais rica e estável.
Andrew Zanelato é bacharel em Relações Internacionais com MBA em IA, Data Science e Big Data pela PUCRS, Pesquisador em Governança de IA e associado Livres.
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