Após impulsionar trilhões em valor, a IA passa a preocupar investidores, que aumentam a compra de opções de venda e contratos contra calotes. Objetivo: limitar perdas caso as apostas em tecnologia revertam.
Depois de impulsionar valorização de trilhões de dólares em ações e empresas de tecnologia, a inteligência artificial (IA) começa a provocar reação entre investidores: cresce a procura por proteção contra uma possível reversão do mercado. Mesmo com muitos participantes ainda otimistas, aumentou a demanda por instrumentos financeiros capazes de reduzir perdas caso as apostas em IA se deteriorem.
O movimento se manifesta em várias frentes de Wall Street. Investidores recorrem a opções de venda e a contratos que protegem contra calotes para limitar riscos. Ao mesmo tempo, empresas que constroem e operam data centers buscam mecanismos que reduzam seu impacto financeiro se a demanda por capacidade computacional recuar.
“Estamos vendo demanda realmente significativa de pessoas que querem se proteger contra perdas”
A preocupação ganhou força depois de empresas, de diferentes portes, não conseguirem atender às expectativas do mercado. A volatilidade afetou companhias que se beneficiaram diretamente do entusiasmo com a IA, incluindo fabricantes de chips, gigantes de tecnologia e operadoras de infraestrutura computacional. Na sexta-feira (30), o Nasdaq, índice fortemente concentrado em empresas de tecnologia, caiu 2,9%, encerrando o pior mês desde março de 2025. Alphabet e Intel também registraram algumas de suas maiores quedas diárias.
Um dos instrumentos mais procurados são as put options (opções de venda). Esses contratos dão ao comprador o direito de vender uma ação por um preço determinado até uma data específica, funcionando na prática como um seguro: se o papel desvalorizar muito, o investidor pode limitar parte do prejuízo. O interesse por esse tipo de proteção aumentou em torno da CoreWeave, empresa de infraestrutura de IA que aluga capacidade computacional e recorreu a grandes volumes de financiamento. Segundo dados da Cboe Global Markets, o volume de contratos de opções ligados à companhia chegou a recorde em outubro e permaneceu elevado. Entre as apostas populares estão opções com vencimento em 2028 que pagam caso as ações caiam para US$ 35; na última semana os papéis eram negociados em torno de US$ 55.
Outra frente envolve credit-default swaps (CDS), contratos que atuam como seguro contra o risco de uma empresa deixar de pagar suas dívidas. O custo desses contratos subiu no último mês para cinco grandes empresas de tecnologia e computação em nuvem — Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle — alcançando níveis mais altos desde 2021, de acordo com uma provedora de dados do mercado. “Não houve exceções, o que sugere uma preocupação ampla do mercado com o setor, em vez de eventos de crédito específicos de empresas individuais”
“Não houve exceções, o que sugere uma preocupação ampla do mercado com o setor, em vez de eventos de crédito específicos de empresas individuais”
No caso da Oracle, os spreads de CDS aumentaram mais de um ponto percentual, sinalizando maior precaução dos investidores. A busca por proteção não se limita a acionistas: empresas que alugam chips e infraestrutura para treinar modelos de IA também estruturam contratos para reduzir o risco de queda nos preços da capacidade computacional.
Operadoras e traders vêm criando mesas e produtos especializados. A Jump Trading, por exemplo, montou uma mesa dedicada ao mercado de poder computacional para explorar diferenças de preço e negociar contratos entre as partes. Um esquema típico é usar opções de venda sobre o aluguel de chips para garantir um preço mínimo de receita caso a demanda e os valores de aluguel recuem.
O mercado já registra variações expressivas: o aluguel de chips Nvidia B300 subiu cerca de 56% neste ano, chegando a US$ 7,56 por hora (aproximadamente R$ 41). Em uma operação hipotética, um participante poderia concordar em comprar essa capacidade caso o preço caísse para US$ 4 por hora (cerca de R$ 22), limitando perdas operacionais. Para empresas e investidores, a lição prática é combinar visão de longo prazo sobre a IA com instrumentos de hedge que protejam capital e deem flexibilidade para navegar cenários de alta volatilidade.
Firmas de negociação como a Susquehanna International Group também relataram consultas de data centers e provedores de infraestrutura interessados em proteger sua exposição aos preços de semicondutores. Entre as alternativas estão contratos vinculados a índices de preços de capacidade computacional, capaz de compensar quedas de receita decorrentes de menor demanda ou aumento da oferta.

Fonte: Olhar Digital
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