Mixtape, o novo jogo da Annapurna, foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais no último final de semana — e nem sempre pelos motivos certos. Enquanto parte da imprensa especializada recebeu o título com elogios generosos, uma parcela do público foi às redes mostrar, em clipes e vídeos, como o jogo praticamente se conduz sozinho, garantindo o sucesso do jogador independentemente dos comandos executados.
A discussão em torno do formato não é exatamente nova. Experiências narrativas com interação mínima existem nos videogames há décadas — das visual novels aos jogos repletos de QTEs do SEGA CD e dos kits multimídia dos anos 1980 e 1990. O que surpreende, desta vez, é a intensidade do debate gerado por um título que, na prática, entrega uma campanha de pouco mais de 2h30 sem oferecer nada além disso ao jogador.
Referências fora do lugar
Desde os primeiros minutos, fica evidente que os criadores de Mixtape buscaram evocar a estética e o clima dos filmes de John Hughes, como Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1987), além do livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby, publicado em 1995. O resultado, porém, é um jogo visivelmente indeciso sobre qual época quer retratar.
Elementos de décadas diferentes convivem sem coerência: as casas do jogo exibem ao mesmo tempo toca-fitas e CDs gravados de forma amadora. Não há um único console de videogame à vista. Os três protagonistas são skatistas, mas estão longe de carregar a irreverência radical típica da época — algo que destoa bastante do universo que o jogo tenta evocar.
A falta de pesquisa aparece também nos detalhes. Em uma das primeiras cenas, a protagonista rebobina uma fita cassete com um lápis girando no sentido errado — e ainda o faz ignorando o toca-fitas funcional com botão de rebobinar a poucos centímetros de distância. Em outro momento, uma locadora de vídeo esconde seus lançamentos no fundo da loja, algo que destoa completamente do funcionamento real desse tipo de estabelecimento.
A linguagem dos personagens também chama atenção pela incongruência. Em determinado ponto, um dos rapazes usa uma gíria contemporânea completamente deslocada do contexto temporal que o jogo tenta recriar.
Curto e repetitivo
Apesar da duração enxuta, Mixtape esgota seu repertório visual rapidamente. Em pelo menos cinco ocasiões ao longo da narrativa, os personagens surgem em cenas de voo — correndo pela grama, dentro de um carro, deitados após um momento íntimo ou em sequências em preto e branco. A mesma estrutura narrativa de um personagem se entregando a uma figura de autoridade para salvar os outros dois se repete pelo menos três vezes.
O que não se repete são os momentos de gameplay mais ativo, que surgem de forma esporádica e chegam a explorar com alguma criatividade o uso dos controles em sincronia com a trilha sonora. A cena do beisebol é citada como um dos pontos altos, assim como a sequência de fogos de artifício e um segmento ao som de Smashing Pumpkins. Fora desses momentos, o jogo oferece pouquíssima interação real — sem escolhas de diálogo ou qualquer agência narrativa por parte do jogador.
Trilha sonora salva, mas não transforma
Um dos aspectos unanimemente elogiados é a trilha sonora, com músicas licenciadas de grandes nomes como The Cure, Joy Division e Roxy Music. A direção de arte e os gráficos também são apontados como qualidades do projeto.
Por outro lado, para um jogo com discurso de contracultura, chama atenção a ausência total de rap ou de qualquer manifestação artística fora do universo da cultura branca anglo-saxônica — algo que, segundo a análise, acaba sendo coerente com o recorte proposto: um trio de jovens de classe média-alta norte-americana dos anos 1980 ou 1990.
No balanço final, Mixtape é descrito como um título barato, rápido e relativamente genérico, que acabou monopolizando debates na internet de forma desproporcional ao que entrega. Fãs de jogos narrativos tendem a encontrar algum valor na experiência; quem não aprecia o gênero terá razões de sobra para a insatisfação.
Siga o Ensinando a Vencer e receba nossos conteúdos em primeira mão.






