Pesquisa do JPL usa rastreamento ultrapreciso de satélites para medir em milímetros o deslocamento do geocentro causado pela redistribuição sazonal de água, gelo e ar. Publicado em 18/09/2026.
O centro de massa da Terra não permaneceu imóvel: uma equipe liderada pelo Jet Propulsion Laboratory (JPL), da NASA, desenvolveu uma técnica nova para medir com maior precisão esse deslocamento, causado pela redistribuição sazonal de água, gelo e ar na superfície do planeta. O método combinou dados de rastreamento ultrapreciso de satélites e permitiu estimativas do movimento em escala de milímetros.
O estudo foi publicado no Geophysical Journal International e a notícia foi publicada em 18/09/2026. A pesquisa buscou reduzir a incerteza nas medições do chamado geocentro, referência crucial para sistemas de navegação por satélite e medições de elevação. Estimativas internacionais feitas em 2017 e 2023 apresentaram uma diferença de 0,27 polegada (7 milímetros), quase tão grande quanto o próprio movimento medido, o que motivou a busca por maior precisão.
Se a Terra fosse uma esfera rígida e uniforme, seu centro de massa coincidiria com o centro geométrico. Na prática, grandes massas de água, gelo e ar deslocaram-se continuamente, fazendo o centro de massa oscilar em relação ao centro geométrico em até vários milímetros. Os pesquisadores identificaram três grupos principais responsáveis pelas oscilações sazonais: oceanos, atmosfera e água continental, que incluiu gelo terrestre, neve, água de lagos e rios, umidade do solo e água subterrânea.
O estudo documentou exemplos claros dessas oscilações sazonais. Em março, o acúmulo de neve na América do Norte e na Eurásia atingiu seu máximo e deslocou o centro de massa cerca de 3 milímetros em direção ao Polo Norte. Em abril, a água da chuva na bacia do rio Amazonas chegou a 2.400 gigatoneladas, movimentando o centro de massa 2,2 milímetros em direção à América do Sul. Em novembro, a água das monções no sudeste asiático alcançou 600 gigatoneladas e contribuiu em menor escala para a oscilação anual.
Entre agosto e outubro, o derretimento de gelo e as chuvas aumentaram a quantidade de água nos oceanos, deslocando o centro de massa em direção ao Pacífico Sul. Segundo o estudo, a dimensão do Pacífico fez com que suas mudanças de massa tivessem influência maior do que as perdas ou ganhos sazonais observados nos demais oceanos.
A atmosfera também participou do processo. Os pesquisadores utilizaram um modelo do European Centre for Medium-Range Weather Forecasts para calcular os efeitos das mudanças atmosféricas ao longo das estações. O ar frio e mais denso do inverno contribuiu para deslocar o centro de massa sobre Arábia, Ásia e norte da África por volta de 21 de dezembro, e sobre América do Sul e África do Sul por volta de 21 de junho.
Os satélites detectaram o deslocamento porque a gravidade fez com que eles orbitassem em torno do centro de massa da Terra. Pequenas mudanças na distância entre satélites e estações terrestres revelaram alterações na posição desse ponto de referência. Os satélites LAGEOS 1 e 2 já foram usados exclusivamente para esse tipo de medição; lançados em 1976 e 1992, respectivamente, eles têm cerca de 408 quilos e são cobertos por prismas refletores. Estações terrestres distribuídas em mais de 20 países acompanharam os satélites por meio de laser.
A nova técnica combinou rastreamento a laser com GPS e dados orbitais de vários satélites em órbita baixa da Terra, e levou em conta a deformação da crosta provocada pelo peso da água e do gelo, incluindo o movimento das próprias estações terrestres usadas nas medições. De acordo com Donald Argus, geocientista do JPL que liderou o desenvolvimento, a estimativa atual do movimento anual do centro de massa foi de aproximadamente metade do que se acreditava há oito anos, indicando que a quantidade de água e ar que se deslocou entre os hemisférios foi menor do que se estimava anteriormente.
Felix Landerer, coautor do estudo no JPL, ressaltou que movimentos dessa escala foram pequenos, mas sistemas modernos dependeram de medições de posicionamento extremamente precisas. A compreensão dessas alterações contribuiu para a qualidade de sistemas de referência usados em mapeamento e navegação, com aplicações práticas em logística marítima e agricultura de precisão.
Os cálculos também foram compatíveis com observações da missão GRACE-FO, formada por dois satélites lançados em 2018 para mapear variações mensais no campo gravitacional da Terra associadas principalmente à movimentação de água acima e abaixo do solo. Esses satélites voaram em formação precisa e detectaram pequenas mudanças na distância entre eles provocadas por alterações na atração gravitacional, reforçando os resultados obtidos pela nova técnica.
Fonte: Olhar Digital
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