O Vaticano, com sua rica história de quase dois mil anos, já enfrentou imperadores, revoluções e inovações tecnológicas que transformaram a sociedade. Hoje, em um momento em que a inteligência artificial (IA) se torna cada vez mais presente, o Papa Leão XIV dedica uma encíclica inteira ao tema, intitulada “Magnifica Humanitas”, publicada na sexta-feira, 15 de maio de 2026. Este documento, que se estende por quase 50 páginas, aborda questões fundamentais sobre a natureza da IA e sua relação com a condição humana.
O Papa inicia sua reflexão com uma pergunta provocativa: o que uma máquina não consegue fazer, mesmo se esforçando ao máximo? Ele destaca que as inteligências artificiais não têm experiências, não sentem alegria ou dor, e não desenvolvem relações significativas como os seres humanos. Em suas palavras, “as IAs não julgam o bem e o mal, não captam o sentido último das situações”.
Além disso, o Papa explica que as IAs são mais “cultivadas” do que “construídas”, o que significa que os programadores criam uma estrutura, mas o desenvolvimento da IA ocorre de maneira autônoma, deixando muitos aspectos de seu funcionamento desconhecidos, até mesmo para seus criadores. Essa característica levanta preocupações sobre a capacidade da IA de entender e considerar o contexto emocional e social das interações humanas.
“Confiar, na prática, a um algoritmo o poder de selecionar quem merece ou não, sem que ninguém mais assuma o peso da decisão, significa confiar-lhe a tarefa de redefinir os limites das possibilidades humanas.”
A encíclica ainda alerta para o risco de decisões críticas, que afetam o trabalho, o crédito e a reputação das pessoas, serem deixadas totalmente nas mãos de sistemas automatizados. O Papa ressalta que um algoritmo que nega um crédito ou rejeita um currículo não é capaz de compreender as circunstâncias que levaram a pessoa a essa situação, uma vez que ele apenas processa dados, sem considerar as experiências de vida.
Outro ponto relevante abordado no documento é a concentração de poder nas mãos de grandes corporações tecnológicas. O Papa observa que esses atores privados frequentemente possuem mais recursos e influência do que muitos governos, o que dificulta a fiscalização e a responsabilidade. Ele argumenta que o controle não se dá apenas por proibições explícitas, mas também através da visibilidade e do que é amplificado ou silenciado nas plataformas digitais.
“Não precisamos de uma IA mais moral, se esta moral for decidida por poucos.”
O Papa pede por auditorias independentes, transparência nos algoritmos e acesso equitativo aos dados, embora não ofereça soluções concretas para a implementação dessas medidas. No final, ele retoma uma reflexão de João Paulo II, questionando se a IA torna a vida humana “mais digna do homem”. Essa questão transcende a tecnologia e se torna um convite à reflexão sobre o futuro da civilização e do papel da humanidade diante das inovações tecnológicas.

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