Uma nova análise de dados da sonda ExoMars Trace Gas Orbiter (TGO), da Agência Espacial Europeia (ESA), identificou um padrão incomum de cloreto de hidrogênio (HCl) na atmosfera marciana que está concentrado sobre fissuras nos flancos de Alba Mons. A descoberta sugere a hipótese de que haja uma fonte de calor subterrânea — possivelmente uma câmara de magma adormecida — permitindo a passagem de gases do interior para a atmosfera.
O sinal foi detectado em uma região onde imagens mostram fissuras estreitas, algumas com centenas de metros de comprimento, acompanhadas por variações na coloração da superfície. Embora a presença de cloreto de hidrogênio em Marte já tenha sido registrada pela ExoMars TGO em 2021, desta vez a equipe observou um comportamento diferente: os picos de HCl apareceram no início do verão do hemisfério norte e ficaram concentrados sobre a mesma área.
A descoberta não indica que Marte esteja prestes a registrar uma erupção. Até o momento, nenhuma atividade vulcânica recente foi observada diretamente no planeta; a origem subterrânea do gás segue como hipótese que precisa de confirmação por meio de novas observações e análises. O estudo foi publicado nesta quarta-feira (4) na revista científica Science Advances.
Um aspecto relevante apontado pelos pesquisadores é a relação entre as emissões e as estações do ano marciano. Durante o inverno, as temperaturas na região podem chegar a aproximadamente -120 °C, condição em que gelo poderia selar as fissuras e bloquear a passagem de gases. Com a chegada do verão, a sublimação do gelo — passagem direta do sólido para o gasoso — poderia reabrir essas passagens, permitindo que compostos escapassem para a atmosfera e explicando os episódios sazonais de picos de cloreto de hidrogênio.
Se a interpretação de calor subterrâneo for confirmada, o cenário terá implicações importantes para a busca por vida microbiana em Marte. Em Terra, sistemas hidrotermais associados a calor geológico e interação entre água e rochas abrigam comunidades microbianas. Uma câmara de magma aquecendo depósitos de água subterrânea marciana poderia gerar ambientes quentes e úmidos protegidos das condições extremas da superfície — possibilidades que tornam o subsolo alvos estratégicos para futuras missões.
Outras observações já indicavam que Marte não é completamente geologicamente inativo: imagens apontam regiões vulcânicas que podem ter permanecido ativas até alguns milhões de anos atrás, e instrumentos registraram martemotos. A nova análise adiciona uma pista à hipótese de fontes de calor subterrâneas ainda não detectadas diretamente.
O caminho a seguir exige mais medições direcionadas, mapeamento detalhado das fissuras e análises que possam distinguir fontes químicas atmosféricas de emissões profundas. Enquanto isso, a possibilidade de ambientes subterrâneos capazes de reunir condições favoráveis à vida microbiana mantém o foco científico no estudo do subsolo marciano.
Fonte: Olhar Digital
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