IPCA avançou 0,07% em julho, devolvendo o acumulado em 12 meses à banda de tolerância do BC. Economistas dizem que núcleos e serviços resistentes reduzem o espaço para novos cortes; ata do Copom traz detalhes.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou uma alta de 0,07% em julho, um resultado que, embora esteja acima do esperado, traz um certo alívio ao acomodar o acumulado de 12 meses de volta à banda de tolerância do Banco Central. A situação é analisada pelos economistas, que apontam um cenário qualitativo adverso. A forte resiliência da inflação de serviços e a pressão contínua nos núcleos de preços devem limitar o espaço para novos cortes na taxa básica de juros.
Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) divulgou a ata com informações mais detalhadas sobre os argumentos que embasaram a decisão de cortar os juros na semana passada, reduzindo a Selic para 14%. O conteúdo do texto gerou divisões entre os economistas sobre os próximos passos a serem tomados, já que a autoridade enfatiza a necessidade de monitorar os dados de inflação e atividade, sem deixar claro se haverá mais cortes ou uma pausa na taxa.
O número oficial de julho divulgado pelo IBGE ultrapassou as expectativas do mercado, que projetava uma variação mais modesta, entre 0,01% e 0,03%. Com esse desempenho, a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,64% em junho para 4,44%, levemente abaixo do teto da meta, que é de 4,5%. No acumulado de 2026, o índice apresenta um avanço de 3,44%.
Hoje, a economista Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, sintetizou o sentimento de cautela que permeia o mercado. Ela mencionou que “a fotografia melhorou, mas saiu menos bonita do que o mercado havia encomendado”. A especialista reforçou a necessidade de uma leitura prudente dos dados, destacando que “a inflação abaixo do teto ajuda, mas a inflação acima da expectativa lembra que o teto nunca foi a meta”.
O grande contrapeso que evitou uma aceleração maior do IPCA foi o setor de alimentação, que se beneficiou de fatores sazonais típicos do meio do ano. O grupo de alimentação e bebidas registrou um recuo de 0,67%, com destaque para a alimentação no domicílio, que apresentou uma queda expressiva de 1,14%. O consumidor sentiu o alívio proporcionado pelos fortes recuos em produtos in natura, como o tomate, que caiu 29,09%, a batata-inglesa, com uma queda de 19,59%, e a cenoura, que teve uma redução de 14,41%.
No entanto, os gastos com a manutenção da casa e o setor de serviços mostraram força, surpreendendo negativamente os analistas. O grupo Habitação, por exemplo, acelerou para 0,99% em julho, impulsionado por um aumento de 3,09% na tarifa de energia elétrica residencial. Esse aumento incorpora não apenas a manutenção da bandeira tarifária amarela, mas também os reajustes aplicados por concessionárias em capitais como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.
O setor de serviços continua sendo um desafio para a política monetária, registrando uma alta de 0,54% no mês, superando a projeção de 0,40% do mercado. No acumulado de 12 meses, os serviços estão em patamares que dificultam a convergência da inflação, variando entre 5,85% e 5,90%. O banco norte-americano Goldman Sachs destacou que a pressão foi generalizada, com 18 categorias de serviços apresentando variações mensais acima de 0,50%.
A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, enfatizou a rigidez desse segmento, apontando que os preços permanecem elevados em categorias como serviços subjacentes, que aceleraram de 0,22% em junho para 0,42% em julho. Outro indicador sensível, os serviços intensivos em trabalho, subiu no acumulado anual para 7,29%, refletindo um mercado de trabalho superaquecido.
A piora na composição qualitativa da inflação pode ser observada pela média dos cinco principais núcleos acompanhados pelo Banco Central, que excluem os ruídos temporários. Essa média avançou 0,26% em julho, acelerando em relação aos 0,21% de junho. O cruzamento desses dados com a ata do Copom, divulgada na mesma manhã, influenciou o humor do mercado. A ata confirmou o corte da taxa básica de juros para 14% ao ano, mas retirou sinalizações automáticas para os próximos passos.
Para João Debom, sócio da Supernova Investimentos, o Copom está em uma encruzilhada. “O IPCA de julho fala do presente — e o presente está comportado. A ata fala do futuro — e é sobre o futuro que o Banco Central continua desconfiado”. Debom orienta que os investidores não se antecipem, pois “o ciclo de corte de juros continua, mas em ritmo mais lento e mais dependente de cada novo dado do que o mercado gostaria”.
Fonte: InfoMoney – Mercado
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