Fundada em 2018, a fabricante chinesa de chips nunca registrou lucro, tem menos de 900 funcionários e um único cliente relevante. Na estreia das ações em Xangai, a cotação subiu 234%, impulsionando fortunas dos fundadores.
A trajetória da Shanghai Enflame Technology Co. mostra como a combinação de aposta em inteligência artificial e abertura de capital pode gerar fortunas mesmo quando a empresa ainda não é lucrativa. Fundada em 2018, a fabricante chinesa de chips nunca havia registrado lucro desde o início das atividades, tinha menos de 900 funcionários e contava com um único cliente importante. Ainda assim, o primeiro dia de negociação das ações da companhia em Xangai provocou um salto expressivo no patrimônio de seus fundadores.
As ações da Enflame dispararam 234% em seu primeiro dia de negociação na sexta-feira em Xangai, elevando a fortuna individual de Zhao Lidong e Zhang Yalin para US$ 2,5 bilhões cada. Ambos permanecem sujeitos a longos períodos de bloqueio de ações e precisam atingir metas específicas antes de poderem resgatar seus investimentos, condição comum em ofertas públicas iniciais que valorizam executivos mas impõem restrições para evitar vendas imediatas.
A Enflame tinha apresentado receita de 990 milhões de yuans (US$ 138 milhões) em 2025, gerada em grande parte por contratos com um grande cliente: a Tencent Holdings Ltd., que é a maior acionista e também a principal compradora dos produtos da empresa. A Tencent detém uma participação de 20% na Enflame e foi responsável por quase 84% da receita reportada em 2025. Ao mesmo tempo, a Enflame registrou prejuízo líquido de 1,16 bilhão de yuans (US$ 160 milhões) naquele ano, em grande parte devido a investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento.
O crescimento de riqueza dos fundadores não foi isolado. Executivos de outras fabricantes chinesas de hardware de IA, como Moore Threads Technology Co. e MetaX Integrated Circuits Co., também viram seu patrimônio pessoal subir substancialmente após aberturas de capital, apesar de prejuízos operacionais. Essa dinâmica ilustra como os IPOs atrelados à narrativa de inteligência artificial têm criado ganhos elevados para um grupo restrito de executivos e investidores.
Os dois cofundadores têm trajetória profissional ligada à Advanced Micro Devices Inc. (AMD). Zhao Lidong passou cerca de duas décadas no Vale do Silício e atuou como vice-presidente da Tsinghua Unigroup, enquanto Zhang Yalin avançou no centro de pesquisa da AMD em Xangai até liderar o desenvolvimento de chips principais. Desde o início, a Enflame optou por desenvolver um tipo alternativo de chip, evitando competir diretamente com as unidades de processamento gráfico de uso geral da Nvidia.
A empresa enfrentou gargalos na cadeia de suprimentos e competição de rivais globais como a Nvidia, além de incertezas geopolíticas que a levaram, no final de 2023, a reduzir a qualidade de certos projetos para manter o acesso às operações da Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC). Para gerar receita, a Enflame também dependeu de projetos de computação financiados por governos locais em cidades como Wuxi e Qingyang.
“A decisão da Enflame de se concentrar em chips alternativos é uma ‘forma de independência estratégica de alto risco’”, disse Paul Triolo, sócio e chefe de tecnologia da DGA.
“O desafio é avaliar como a estratégia da Enflame funciona com diferentes clientes”, disse Triolo. “Pode ser boa para a Tencent e para centros de dados municipais, considerando os recursos para portar e atualizar o software, mas menos atraente no mercado aberto de desenvolvedores.”
A Enflame não respondeu aos pedidos de comentários. A história da empresa destaca uma lição prática para investidores e empreendedores: o apetite do mercado por soluções de IA pode gerar valor significativo rapidamente, porém acompanha riscos operacionais, dependência de grandes clientes e pressões geopolíticas que podem afetar qualidade, cadeia de suprimentos e sustentabilidade financeira no longo prazo.

Fonte: InfoMoney – Mercado
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