A partir de 15 de setembro o Campo de Marte passa a operar por instrumentos (IFR), alterando procedimentos de voo. Desde abril, um raio de 20 km tem limites mais rígidos: obras acima de 45 m precisam de autorização aeronáutica.
Publicado em 07/09/2026. As mudanças nas regras de operação do Campo de Marte, em São Paulo, tornaram-se um ponto de atenção para incorporadoras, gestores públicos e moradores. A partir de 15 de setembro, os voos que pousam e decolam no aeroporto serão operados por instrumentos (IFR). Para viabilizar essa operação, desde abril uma área de 20 quilômetros ao redor do aeroporto passou a ter limites de altura mais restritivos para novas construções.
Na prática, desde abril tudo o que for construído no raio de 20 quilômetros e que ultrapassar os 45 metros de altura do terminal aeroviário precisa de autorização do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), da Força Aérea Brasileira (FAB). Antes, essa exigência se aplicava apenas a construções num raio de 2,5 quilômetros.
De um lado, a FAB e a Pax Aeroportos têm minimizado o impacto das mudanças; de outro, representantes do setor imobiliário e do poder público manifestaram preocupação sobre os efeitos para o desenvolvimento urbano. A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento informou que as restrições de construção por conta dos voos no Campo de Marte passaram de 2,98% para 52,7% da cidade, afetando regiões consideradas estratégicas para produção habitacional e projetos públicos e privados.
“O aeroporto do Campo de Marte é, dos três aeroportos, o mais baixo de todos por estar na várzea. Então a cidade inteira será atingida por uma restrição de gabarito, e não é só o setor imobiliário, mas qualquer hospital, universidades, equipamentos em geral. Por tão pouco, por quatro voos por dia, você vai submeter a cidade a uma restrição de construções dessa magnitude?”
A alteração também aumentou a área geral da cidade que tem algum tipo de restrição construtiva por causa de aeroportos — considerando também Congonhas e Guarulhos — de 64% para 71% do território municipal. O argumento é que, por estar em altitude menor, o Campo de Marte exige uma dinâmica diferente de análise e limitações de gabarito.
A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) estimou que as novas regras podem gerar um custo adicional para o setor de até R$ 2,7 bilhões por ano e solicitou diálogo para buscar soluções que preservem segurança e desenvolvimento urbano.
“Não é razoável que uma mudança voltada a uma parcela restrita da população prejudique milhares de famílias e enfraqueça o planejamento urbano de São Paulo. A Abrainc defende uma solução construída por meio do diálogo, que preserve a segurança do espaço aéreo sem comprometer a construção de moradias, a geração de empregos e o desenvolvimento”, disse a entidade em nota.
O balanço do Decea mostrou aumento no número de pedidos de pareceres para novas obras na área afetada. Entre julho e 15 de dezembro de 2025, período analisado sob regras de voo visual (VFR), houve 6.399 pedidos: 4.175 foram aprovados de imediato e 728 (12%) exigiram abertura de processo técnico para avaliação mais aprofundada. Já entre 16 de dezembro de 2025 e 30 de junho de 2026 — período que considera operações por instrumentos (IFR) — o número de pedidos subiu para 8.187, dos quais 4.656 foram aprovados de imediato e 1.081 (13%) viraram processos de análise técnica.
“A implantação do IFR no Campo de Marte não altera o desenvolvimento urbano de São Paulo. Dados do DECEA mostram que, já sob análise IFR, 13% dos pedidos de autorização para construção no entorno do aeroporto seguiram para análise técnica mais profunda, praticamente o mesmo percentual do período anterior, que foi de 12% sob VFR, comprovando a compatibilidade da operação por instrumentos com a atividade imobiliária”, disse Rogerio Prado, CEO da PAX Aeroportos.
A transição do VFR para o IFR foi prevista contratualmente quando a Pax assumiu a concessão em 2022. A modernização busca ampliar gradualmente os tipos de aeronaves que poderão operar no aeroporto; no primeiro momento, os voos por IFR só poderão ser feitos entre 6h e 6h59, limitados a quatro pousos ou decolagens nesse período, e depois a expectativa é aumentar esse tipo de voo.
Para incorporadoras, gestores e moradores, o cenário exige adaptação prática: antecipar consultas ao Decea, rever gabaritos e projetos para reduzir risco de retrabalho, incluir prazos e custos adicionais nas projeções financeiras e intensificar diálogo com órgãos públicos para buscar soluções que conciliem segurança operacional e metas de desenvolvimento urbano. A discussão segue aberta e tende a influenciar planejamento de empreendimentos, equipamentos públicos e decisões de política urbana nos próximos meses.




Fonte: InfoMoney – Mercado
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