Pesquisas mostram que o exercício do poder não tem gerado apoio eleitoral suficiente. Cila Schumann, do Instituto Ideia, diz que polarização e inflação ampliam o desgaste do incumbente.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final do segundo turno enfrentando um fenômeno que tem aparecido em diferentes democracias: a dificuldade de transformar o exercício do poder em apoio eleitoral suficiente para garantir a continuidade no cargo. A pesquisadora Cila Schumann, do Instituto Ideia, sintetiza esse desafio com a expressão “maldição do incumbente”, que descreve o desgaste enfrentado por quem já governa, especialmente em cenários de forte polarização, expectativas elevadas e insatisfação com o custo de vida.
Em entrevista ao Mapa de Risco, programa de política, nesta sexta-feira (23), Cila afirmou que esse fenômeno ajuda a compreender a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), marcada pelo equilíbrio nas pesquisas e pela resistência de parte do eleitorado à continuidade do atual governo.
“É uma eleição desde o início que eu chamo de uma eleição de oposição, com a maldição do incumbente, que é uma maldição que tem viajado por muitos países, por muitas eleições ultimamente”
A análise coloca em foco um ponto central: embora governos possam acumular realizações administrativas e anunciar políticas públicas, essas vantagens vêm perdendo poder de mobilização em sociedades profundamente divididas. Cila ressaltou que, ao longo da campanha, o presidente não conseguiu ampliar de maneira significativa sua aprovação, o que limitou o potencial de converter medidas governamentais em votos adicionais.
“Antigamente a gente sempre falava: o incumbente, como ele tem a caneta, como ele tem uma série de vantagens, vai crescendo a sua aprovação durante a campanha. Isso não aconteceu com o presidente Lula”
A explicação traz à tona dois fatores que se reforçam: a eleição de chefes de Estado por margens estreitas e a polarização que fixa posições de parte do eleitorado. Quando a vitória ocorre por diferença pequena, o mandato começa com parcela expressiva da população contrária, e conquistar esses eleitores ao longo do tempo se torna tarefa difícil.
“Como os presidentes têm sido eleitos por uma margem muito pequena de votos, eles têm dificuldade, durante o mandato, de falar com aquela metade que não aceita que ele seja o presidente. Então a gente não consegue mais voltar da polarização”
A partir dessa leitura, a “maldição” revela-se não só como um problema de comunicação, mas também como um desafio estrutural: medidas concretas sobre economia e políticas sociais podem não ser suficientes para alterar percepções quando a divisão política é profunda. A consequência prática é que a estabilidade da desaprovação durante a campanha torna mais difícil transformar anúncios e benefícios em ampliação da base de apoio.
Para quem governa e busca reverter esse quadro, o caminho exige foco em clareza de mensagem, priorização de ações com impacto direto na vida cotidiana e formas de diálogo que busquem reduzir a distância com eleitores não alinhados. Mesmo assim, a análise indica que a combinação de polarização e expectativas elevadas continuará a testar a capacidade de incumbentes transformarem suas vantagens institucionais em votos.


Fonte: InfoMoney – Mercado
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